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Crianças precisam da cidade inteira, não apenas de parquinhos, explica especialista em neuroarquitetura

Para Gabi Sartori, calçadas, sombra, segurança e convivência também fazem parte do planejamento urbano para a infância

Por Inácio Rodrigues5 min de lectura

Janela alta de vidro com vista para a copa das árvores, e um vaso de planta ao lado da escada interna.

Um parquinho não compensa uma calçada por onde a criança não consegue caminhar, um trajeto sem sombra ou uma rua que provoca medo em quem está a pé. Pensar a infância na cidade exige considerar como os pequenos chegam aos lugares, o que percebem pelo caminho e como podem participar da vida urbana.

Essa discussão ganhou um novo ponto de partida com o livro “Cidades que Abraçam Infâncias”, da jornalista Regina Cintra. Nascida de uma pesquisa de mestrado em Gestão e Políticas Públicas, a obra reúne experiências de Jundiaí, Recife, Boa Vista e Medellín que incorporaram as necessidades das crianças ao planejamento urbano.

Para a arquiteta e especialista em em Neurociência e Desenvolvimento Infantil, Gabi Sartori, cofundadora da NEUROARQ® Academy, esses exemplos ajudam a superar uma ideia restrita: a de que o lugar da criança na cidade se resume aos equipamentos de brincar.

“A infância também acontece no caminho até a escola, na espera pelo ônibus, na praça e na calçada. A cidade inteira participa dessa experiência e pode oferecer oportunidades de movimento, descoberta e convivência”, afirma.

A cidade a 95 centímetros do chão

Olhar o espaço urbano pela perspectiva infantil é a proposta da Urban95, iniciativa global da Fundação Van Leer. O nome corresponde à altura média de uma criança de três anos: 95 centímetros. A pergunta que orienta a iniciativa é o que mudaríamos se vivenciássemos a cidade a partir dessa altura.

A proposta orienta gestores a considerar a primeira infância nas decisões sobre espaços públicos, segurança viária, natureza, serviços e políticas de apoio aos cuidadores. Jundiaí, Recife e Boa Vista estão entre os municípios da rede brasileira e aparecem na pesquisa de Regina Cintra.

Em Jundiaí, a autora descreve equipamentos de brincar e de cultura conectados por medidas de acalmamento do trânsito, ciclovias e totens com histórias infantis. Planejar o equipamento e cuidar do caminho fazem parte do mesmo trabalho.

Essa mudança de perspectiva tem consequências práticas. Um trajeto considerado curto por um adulto pode ser cansativo para quem tem passos menores. Um muro alto, uma esquina sem visibilidade ou pouco tempo para atravessar a rua podem limitar a segurança e a exploração.

Calçadas contínuas, travessias legíveis, velocidade reduzida dos veículos e elementos no campo de visão infantil ajudam a compreender o percurso. Sombra, locais para sentar e acesso à água permitem respeitar o ritmo das crianças e beneficiam cuidadores, idosos e outras pessoas que caminham mais devagar.

“Autonomia não significa deixar a criança desprotegida. Significa oferecer condições para que ela reconheça caminhos, faça pequenas escolhas e participe da cidade dentro de limites seguros”, explica Gabi.

De triciclo, o bairro deixa de ser passagem

No centro de São Paulo, o projeto Motoca na Praça mostra como essa participação pode entrar no cotidiano. Criada na EMEI Armando de Arruda Pereira, localizada na Praça da República, a iniciativa leva crianças a explorar semanalmente a praça e o entorno em triciclos, acompanhadas por educadores.

A proposta é aproximar os alunos do território onde vivem e estudam. Nos passeios, eles observam prédios históricos, equipamentos culturais e mudanças na paisagem, além de conversar com pessoas que trabalham e circulam pela região. Depois, registram o que viram em desenhos e fotografias.

O triciclo é o meio para essa experiência. Caminhos antes percorridos apenas na chegada e na saída da escola passam a ter histórias e pessoas reconhecíveis. A praça ganha significado para as crianças.

A experiência inspirou o livro infantil “Daqui eu vejo: pedalando na cidade”, de Lívia Arruda e Marcelo Jucá, com ilustrações de Veridiana Scarpelli. A obra convida o leitor a explorar o entorno, conhecer diferentes realidades e perceber que também pode fazer parte da comunidade.

“Motoca na Praça e Urban95 ajudam a compreender duas dimensões da mesma questão. O planejamento cria condições para a presença infantil; escolas, famílias e comunidades constroem oportunidades de uso. Além de uma praça acessível, as crianças precisam poder frequentá-la e estabelecer vínculos com ela”, pondera a especialista.

Explorar e conviver também fazem parte do projeto

Para Gabi, uma cidade adequada às crianças não precisa reproduzir a lógica dos parques temáticos. Sua riqueza está nas oportunidades de observar mudanças de luz, tocar materiais, ouvir sons, acompanhar a vegetação e encontrar outras pessoas.

Esses estímulos precisam ser equilibrados. Excesso de ruído, trânsito e informação visual pode tornar o percurso desgastante. Natureza, marcos reconhecíveis e pequenas possibilidades de brincar ajudam a tornar a experiência mais legível e interessante. Uma amarelinha no chão ou um espaço livre para diferentes usos já oferecem oportunidades de brincar.

A permanência também precisa ser considerada. Bancos próximos às áreas de brincar e praças conectadas aos trajetos cotidianos permitem que crianças e cuidadores descansem, conversem e convivam com outras gerações. O espaço público também precisa acolher quem acompanha a criança.

“Uma cidade boa para a infância não é aquela que separa a criança em uma área cercada. É aquela que permite que ela participe da vida urbana, encontre outras pessoas e reconheça que também pertence àquele lugar”, conclui Gabi.

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