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O conforto térmico começa no projeto da casa

Orientação solar, sombra, ventilação e materiais decidem a temperatura dentro dos ambientes. A arquiteta Gabi Sartori explica por onde o projeto começa.

By Inácio Rodrigues4 min read

Sala de estar com ripado de madeira no teto, estante vazada, piso claro e vasos de plantas.

Quando o calor aumenta do lado de fora, a casa consegue proteger quem está dentro? O problema fica evidente quando o sol se põe e o quarto continua quente. Num apartamento de último andar, a cobertura e uma fachada voltada para o sol da tarde podem acumular calor durante horas. Sem proteção externa nas janelas e sem aberturas que favoreçam a circulação do ar, paredes, teto e objetos devolvem esse calor ao ambiente durante a noite.

“Uma casa pode continuar irradiando o calor acumulado justamente quando o morador precisa descansar. Não basta olhar a temperatura externa: é preciso entender como cada superfície recebe, armazena e libera energia.”

Gabi Sartori, arquiteta e urbanista, cofundadora da NEUROARQ® Academy

A Organização Mundial da Saúde classifica o calor como risco à saúde e alerta que a exposição prolongada pode agravar diferentes doenças. Idosos, crianças, pessoas com condições crônicas e quem vive em moradias de baixa qualidade ou sem acesso a resfriamento estão entre os mais vulneráveis.

Impedir a entrada antes de resfriar

Para Gabi, a primeira resposta do projeto não deveria ser apenas instalar climatização, e sim reduzir o calor que entra. Orientação, sombreamento, proteção da cobertura, materiais e vegetação interferem no desempenho térmico da moradia.

Numa janela voltada para o sol da tarde, um brise, um toldo ou outro elemento externo de sombra bloqueia a radiação antes que ela atravesse o vidro. Na cobertura, isolamento e superfícies de menor absorção solar limitam o ganho de calor. Árvores podem sombrear fachadas e reduzir o aquecimento do entorno. As soluções, porém, precisam responder ao clima, à orientação e ao uso de cada imóvel.

“A primeira pergunta não é como retirar o calor depois que ele entrou, mas como evitar que a casa o acumule. Quando o projeto controla a incidência solar e aproveita os recursos do clima, diminui a dependência de soluções que consomem energia continuamente”, afirma.

A ventilação também exige leitura do contexto. Entradas e saídas de ar bem posicionadas favorecem a remoção do calor e melhoram a sensação térmica. À noite, abrir a casa pode ajudar quando o exterior está mais fresco; nas horas mais quentes, abrir todas as janelas pode trazer mais calor. Ruído, poluição, segurança e ausência de vento também interferem no resultado.

Conforto se verifica depois da obra

O desempenho previsto no projeto não encerra o trabalho. Temperatura interna, umidade, incidência solar e circulação do ar podem ser observadas em horários diferentes e comparadas entre os ambientes. A escuta dos moradores mostra se o quarto permite dormir, se a sala continua utilizável à tarde e se as soluções propostas funcionam na rotina.

Essa aproximação entre condições ambientais e experiência dos usuários é uma contribuição da neuroarquitetura. No levantamento de autopercepção feito pela NEUROARQ® Academy entre 2022 e 2025, com mais de 6 mil respostas de diferentes regiões do Brasil, iluminação natural e temperatura confortável apareceram entre os fatores associados à percepção positiva dos espaços.

Na metodologia da NEUROARQ® Academy, Clima e Ar é uma das nove variáveis ambientais usadas para investigar como as pessoas percebem e vivem os espaços. No calor, essa leitura permite associar temperatura, umidade e circulação do ar aos relatos de conforto, desconforto e possibilidade de adaptação. A percepção não substitui a avaliação técnica do desempenho térmico, mas revela como as condições do ambiente são vividas no dia a dia.

“Conforto térmico não é apenas um número. Idade, saúde, atividade, roupas, umidade, movimento do ar e possibilidade de adaptação mudam a experiência. Avaliar o ambiente depois da ocupação permite corrigir decisões que pareciam adequadas no papel”, diz Gabi.

O calor também revela desigualdades. A OMS aponta que populações de baixa renda estão mais expostas ao superaquecimento por causa da qualidade das moradias e da falta de acesso a resfriamento. Soluções passivas e de baixo custo operacional são fundamentais, sobretudo em habitações sociais, escolas e locais de trabalho.

“Uma moradia saudável precisa continuar habitável nos períodos mais quentes. Projetar para isso não é acrescentar conforto como luxo, mas recuperar uma função básica da arquitetura: proteger as pessoas”, conclui.

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  • Conforto térmico

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