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Toy Story 5 coloca uma questão para a arquitetura: como projetar espaços que devolvam presença à infância?

Para Gabi Sartori, da NEUROARQ® Academy, organização espacial, materialidade, iluminação e mobiliário podem estimular a exploração e a interação e criar limites mais claros para as telas

By Inácio Rodrigues7 min read

Listras de sol atravessando uma cortina e caindo sobre uma parede de tijolos claros, junto de uma porta de madeira.

Quando Toy Story chegou aos cinemas, em 1995, a franquia já tratava do impacto de uma novidade tecnológica sobre o brincar. Buzz Lightyear, com luzes, sons e asas retráteis, parecia representar o futuro diante de Woody, um brinquedo mais tradicional, acionado por uma corda.

Três décadas depois, Toy Story 5 leva esse conflito a outra escala: Jessie e os demais brinquedos se sentem ameaçados por Lilypad, um tablet inteligente que não apenas entretém Bonnie, mas lhe apresenta um mundo de interação e promete ajudá-la a encontrar amigas. A comparação lança uma questão para arquitetos e designers: como fazer o espaço físico continuar interessante quando a tecnologia também passa a mediar os vínculos?

Para a arquiteta e urbanista Gabi Sartori, cofundadora da NEUROARQ® Academy e especialista em neurociência e desenvolvimento infantil, a resposta não está em excluir a tecnologia de todos os contextos, nem em mantê-la disponível em todos eles. O projeto pode convidar ao movimento, à imaginação e ao encontro, além de reservar momentos e ambientes livres de telas.

“A tecnologia faz parte da infância contemporânea. O desafio é impedir que ela se torne a única experiência atraente do ambiente. Precisamos criar espaços nos quais a criança possa escolher, explorar e interagir de outras maneiras, além de preservar situações em que a tela não esteja presente”, afirma.

A arquitetura também disputa atenção

Gabi explica que celulares e tablets passaram a acompanhar refeições, descanso, convivência e brincadeiras. Com notificações, vídeos curtos e recompensas imediatas, os dispositivos competem continuamente com o ambiente.

Essa disputa também é influenciada pelo projeto. Quando a tela está acessível, enquanto brinquedos, livros e materiais permanecem escondidos, o espaço já orienta uma escolha. Estantes baixas, objetos ao alcance das mãos, áreas livres e móveis que possam ser reorganizados ampliam a autonomia e transformam o ambiente em um campo de exploração e interação.

“Todo ambiente apresenta convites. Uma tela ligada convida a olhar; um brinquedo visível, a tocar; uma área livre, a movimentar o corpo. A arquitetura não determina o comportamento, mas pode ampliar as possibilidades de escolha e tornar a exploração e a interação mais acessíveis”, diz Gabi.

O corpo como ponto de partida do projeto

A criança conhece o mundo caminhando, tocando, ouvindo, equilibrando-se e testando distâncias. Por estar em pleno desenvolvimento, ela não apenas ocupa o ambiente: relaciona-se com ele de maneira intensa, quase simbiótica, e o transforma enquanto brinca. Projetar para a infância, portanto, vai além da decoração: o espaço precisa oferecer oportunidades de movimento, exploração, interação e descoberta.

A interatividade do espaço físico não precisa copiar a lógica digital. Ela pode surgir em elementos que a criança toque, mova, combine e reorganize, permitindo que sua ação produza respostas concretas no ambiente. A configuração do mobiliário também interfere nas relações: mesas compartilhadas, assentos frente a frente e ambientes que não tenham a televisão como único ponto focal favorecem contato visual, conversa e atividades coletivas.

Segundo Gabi, a alternativa ao excesso de estímulos não é criar espaços vazios, mas diferenciar intensidade de qualidade sensorial. Luz natural, conforto acústico, texturas, plantas e variações de luminosidade oferecem uma experiência rica, material e concreta, sem reproduzir a intensidade do digital.

Um ambiente visualmente carregado, com excesso de cores, objetos e informações concorrentes, pode ampliar a dispersão.

Ruídos constantes dificultam a concentração e impedem momentos de recuperação. Uma iluminação uniforme e muito intensa durante todo o dia elimina variações que ajudariam a marcar atividade, transição e descanso.

“O mundo físico não precisa imitar a intensidade do digital para ser interessante. Sua força está na profundidade da experiência: tocar um material, perceber uma mudança de luz, ouvir um som distante ou observar algo que se transforma lentamente”, afirma.

Projetar diferentes níveis de estímulo também é importante. Um mesmo ambiente pode oferecer áreas mais ativas, destinadas ao movimento, à convivência e ao brincar, e espaços mais protegidos para leitura, concentração ou descanso. Essa diversidade permite que a criança explore o espaço e encontre o nível de interação adequado a diferentes momentos, em vez de permanecer exposta a uma única intensidade ambiental.

Os limites digitais também podem ser projetados

Para Gabi, o equilíbrio entre experiências digitais e presenciais não depende apenas de regras familiares ou disciplina individual. Em um contexto de discussão crescente sobre limites para celulares nas escolas e acesso de crianças às redes sociais, o desenho dos espaços pode dar suporte concreto a essa organização.

Quando todos os aparelhos permanecem espalhados e disponíveis, o gesto de consultá-los tende a acontecer de maneira automática. Para a criança, a simples presença da tela pode criar uma disputa desigual com outras atividades. Um local específico para guardar e carregar celulares e tablets cria uma barreira física e ajuda a marcar os momentos de uso.

Da mesma forma, alguns ambientes e situações podem ser intencionalmente livres de telas e, quando fizer sentido, de acesso à internet. Áreas de leitura e de brincar podem proteger a continuidade da atividade; a mesa de refeições pode recuperar sua função de encontro; o quarto pode favorecer a desaceleração antes do sono. Nesses casos, a ausência da tecnologia não é uma rejeição ao digital, mas uma condição de projeto para que outras experiências tenham tempo e espaço para acontecer.

Não se trata de eliminar a tecnologia da infância contemporânea, mas de decidir onde e quando ela faz sentido. Em escolas, bibliotecas e espaços culturais, os recursos digitais podem ocupar áreas definidas, enquanto outros ambientes permanecem dedicados à experimentação, à leitura, ao movimento e à produção coletiva. Em residências, o projeto pode evitar que a tela seja o único centro organizador da sala e criar configurações que estimulem diferentes usos.

“Quando a tecnologia ocupa todos os ambientes, ela também ocupa todos os tempos. A arquitetura pode criar lugares para conexão, mas também espaços deliberadamente livres dela, nos quais o corpo, o brincar e as relações recuperem o protagonismo”, ressalta Gabi.

Das telas para a vida real

Ao transformar um tablet em personagem, Toy Story 5 torna visível uma disputa que normalmente acontece de forma silenciosa. Lilypad não oferece apenas entretenimento: promete a Bonnie possibilidades de interação e pertencimento. Ao longo da história, porém, o contato construído no virtual revela seus limites diante da profundidade das relações presenciais. A imagem das crianças diante do brilho azul das telas, vistas através das janelas das casas, sintetiza uma infância fisicamente dentro do espaço, mas pouco conectada a ele.

O filme também deixa claro que a absorção pelas telas não é apenas infantil. Os adultos aparecem concentrados em seus próprios dispositivos, e até a comunicação entre Bonnie e o pai passa por mensagens. A reflexão, portanto, alcança casas, escolas, brinquedotecas, bibliotecas, restaurantes, espaços culturais, áreas comuns de condomínios e ambientes urbanos. Em todos eles, o projeto pode convidar crianças e adultos a estarem de corpo presente, reduzir distrações e favorecer encontros.

Para Gabi, o neurodesenvolvimento ensina à arquitetura que a criança aprende por meio de experiências concretas, ao experimentar o mundo com todos os sentidos. Ela precisa tocar, mover-se, ouvir, observar, manipular, imaginar e conviver. A tela restringe parte dessa experiência sensorial; o ambiente físico, por sua vez, pode ampliar as oportunidades de ação, exploração, interação, encontro e descoberta. Esse convite também precisa alcançar o adulto, cuja presença ajuda a sustentar o envolvimento da criança com o espaço e com as relações.

“Não podemos pedir presença se o ambiente não oferece motivos para permanecer nele. Se queremos crianças mais curiosas, participativas e conectadas ao próprio corpo, precisamos projetar espaços que elas queiram explorar, com os quais possam interagir e que sustentem essas experiências”, conclui.

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  • Infância

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