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Enquanto o mundo pergunta o que a Inteligência Artificial fará com a arquitetura, a pergunta mais urgente é: o que a arquitetura fará pelos seres humanos?

Ao completar sete anos, a NEUROARQ® Academy defende que ciência e dados humanos serão tão importantes para o futuro da profissão quanto as novas tecnologias.

By Inácio Rodrigues4 min read

Duas apresentadoras numa sala pequena com um pátio de arquitetura projetado na parede, diante de uma plateia sentada.

Por Gabi Sartori e Priscilla Bencke, arquitetas e cofundadoras da NEUROARQ® Academy

Enquanto o mundo pergunta o que a Inteligência Artificial vai fazer com a arquitetura, a pergunta mais urgente talvez seja outra: o que a arquitetura vai fazer pelos seres humanos?

Em 20 de agosto de 2026, a NEUROARQ® Academy completa sete anos. Quando fundamos a Academia Brasileira de Neurociência e Arquitetura, em 2019, partimos de uma convicção: o futuro da profissão não poderia ser discutido apenas a partir das ferramentas utilizadas para projetar. Seria necessário compreender, com mais profundidade, as pessoas que habitam os espaços.

Nesse período, a Inteligência Artificial passou de promessa a realidade profissional. Segundo o relatório de 2026 do Royal Institute of British Architects, 74% dos escritórios britânicos consultados já utilizam IA em pelo menos parte de seus projetos. A tecnologia pode analisar dados, automatizar processos, testar cenários e ampliar a capacidade criativa. Mas não experimenta os ambientes que ajuda a conceber.

Uma IA não sente acolhimento, solidão, cansaço, medo, sobrecarga sensorial ou pertencimento. Não percebe o ofuscamento de uma luminária, o ruído que impede a concentração ou a insegurança provocada por um percurso mal planejado. Essas experiências continuam sendo humanas, e deveriam ocupar o centro das decisões de projeto.

Essa mudança de perspectiva é urgente. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vivencia a solidão. Ansiedade, depressão e burnout também avançam, enquanto a hiperconectividade digital convive, paradoxalmente, com a perda de vínculos sociais reais.

Diante desse cenário, a arquitetura precisa voltar a ser entendida como infraestrutura de conexão humana. Áreas comuns convidativas, diferentes escalas de convivência, espaços públicos acolhedores e percursos que favoreçam encontros podem criar oportunidades de vínculo. Não se trata de obrigar as pessoas a interagir, mas de permitir que a vida coletiva aconteça.

O mesmo raciocínio se aplica à saúde mental. A arquitetura não cura transtornos psicológicos nem substitui cuidados especializados, mas pode evitar a produção de estresse desnecessário. Conforto acústico, iluminação adequada, legibilidade espacial, privacidade e possibilidade de escolha ajudam a reduzir a carga cognitiva e a tornar o ambiente menos hostil ao sistema nervoso.

Também estamos nos movimentando cada vez menos. A OMS calcula que 31% dos adultos não atingem os níveis recomendados de atividade física. Quando edifícios escondem escadas, desencorajam caminhadas e concentram todas as atividades em torno de telas, o próprio espaço reforça a inatividade. O design pode fazer o contrário: tornar o movimento mais intuitivo, agradável e acessível.

Ao mesmo tempo, precisamos reconstruir nossa relação com a natureza. A biofilia não deveria ser reduzida a uma escolha estética ou à presença isolada de plantas. Luz natural, ventilação, vistas para áreas verdes e contato real com espaços externos podem integrar estratégias de bem-estar. Em ambientes hospitalares, pesquisas já relacionam intervenções biofílicas a benefícios para pacientes e profissionais.

Solidão, saúde mental, sedentarismo, desconexão com a natureza, excesso de telas e cidades desumanizadas parecem desafios diferentes, mas apontam para a mesma direção: precisamos projetar com base em como as pessoas realmente percebem, utilizam e respondem aos ambientes.

É nesse ponto que a neuroarquitetura se torna uma metodologia para o futuro. Isso significa combinar criatividade com avaliações pós-ocupação, observação de comportamentos, entrevistas, escalas de percepção e indicadores de conforto. Significa substituir decisões baseadas apenas em preferências pessoais ou tendências estéticas por escolhas que também possam ser observadas, testadas e aperfeiçoadas.

A ciência, naturalmente, não oferece receitas universais. Pessoas de diferentes idades, culturas, histórias e condições neurológicas não respondem da mesma maneira ao espaço. Projetar com dados humanos não é padronizar experiências, mas reconhecer essa diversidade.

Ao longo de sete anos, a NEUROARQ® Academy ajudou a levar essa discussão para a prática profissional brasileira. Foram criados cursos, formações, conferências, publicações, ferramentas de percepção ambiental, um MBA em Neuroarquitetura e Design para o Bem-Estar Humano e uma comunidade que reúne mais de 700 profissionais.

Ser pioneira não significa apenas ter chegado antes. Significa sustentar uma discussão, criar pontes entre pesquisa e prática e defender uma aplicação responsável da ciência na arquitetura.

A Inteligência Artificial certamente participará do futuro da profissão. Mas ela deve permanecer como ferramenta, não como protagonista. O protagonismo pertence às pessoas que vivem, trabalham, aprendem, se recuperam e constroem relações dentro dos espaços que projetamos.

A neuroarquitetura não é uma tendência estética. É a metodologia que conecta ciência, dados humanos e design para responder às maiores urgências do nosso tempo. O verdadeiro avanço da arquitetura não será medido apenas pelo que a tecnologia será capaz de produzir, mas pela qualidade de vida que nossos espaços serão capazes de promover.

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