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Suspensão de sanções da NR-1 não reduz a urgência de melhorar os ambientes de trabalho

Para a arquiteta, especialista em arquitetura corporativa, Priscilla Bencke, decisão do STF não deve adiar a revisão de espaços que aumentam o desgaste dos trabalhadores

By Inácio Rodrigues4 min read

Duas mulheres conversam à mesa de trabalho, com um papel de anotações à frente, numa sala clara.

O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, em agosto, a decisão que suspendeu por 90 dias multas e outras sanções relacionadas à inclusão dos fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais da NR-1, porém, essa medida não deve ser entendida como um sinal para deixar a prevenção em segundo plano, como explica a arquiteta, especialista em neuroarquitetura e projetos para ambientes corporativos, Priscilla Bencke.

A medida, tomada em junho, busca abrir espaço para uma conciliação sobre os critérios regulatórios e a aplicação das penalidades. No cotidiano das empresas, porém, permanecem as condições que deram relevância ao debate sobre saúde mental no trabalho.

Para a arquiteta, esperar o fim da discussão jurídica significa prolongar problemas que já afetam as equipes. “Se o ambiente gera desconforto, cansaço ou dificuldade de concentração, esses efeitos não desaparecem porque as multas foram suspensas. A prevenção precisa continuar, independentemente do calendário regulatório”, afirma.

O ambiente também faz parte do trabalho

Todo trabalho acontece em algum ambiente. A experiência profissional, portanto, não é determinada apenas pelas tarefas, pelos prazos e pelas relações. Ela também é influenciada pelos espaços físicos que acompanham o trabalhador durante a jornada.

Ruído constante, temperatura desconfortável, iluminação inadequada, ar de baixa qualidade e falta de privacidade podem tornar as atividades mais cansativas. Concentrar-se em meio a conversas paralelas, procurar um local reservado ou lidar com calor excessivo exige um esforço que se repete e consome energia.

Como esses incômodos passam a fazer parte da rotina, muitas vezes deixam de ser questionados. “É possível se acostumar até com espaços que não fazem bem. O corpo, no entanto, continua respondendo a eles, mesmo quando o desconforto já parece normal”, explica Priscilla.

A arquitetura não é a única responsável pelo adoecimento. Carga de trabalho, modelo de gestão, relações profissionais e liderança fazem parte do mesmo cenário. O espaço é uma das camadas dessa experiência e deve ser considerado junto com as demais.

Uma relação que também passa pela NR-17

A presença do ambiente nessa discussão não começou com a atualização da NR-1. Priscilla lembra que a NR-17 já prevê a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.

Essa diretriz leva a ergonomia para além da escolha de cadeiras, mesas e equipamentos. Também é preciso observar como as tarefas são realizadas, que interações acontecem no local e se o espaço oferece suporte a elas.

Um escritório aberto pode facilitar a troca entre uma equipe e prejudicar quem precisa de silêncio para se concentrar. Uma área de convivência pode favorecer encontros, mas não permitirá descanso se estiver exposta ao mesmo ruído e à mesma circulação das estações de trabalho.

Antes de mudar o espaço, é preciso entender a rotina

Como as necessidades variam, não existe uma solução pronta para todas as empresas. Por isso, segundo Priscilla, a melhoria do ambiente deve começar pela escuta, não pela reforma.

Pesquisas com funcionários, observação da rotina e avaliações acústicas, térmicas, visuais e da qualidade do ar revelam o que uma planta ou uma visita rápida não mostram. O diagnóstico ajuda a localizar as interrupções, entender quais equipes precisam estar próximas e reconhecer tarefas que exigem concentração ou privacidade.

Com essas informações, o projeto pode responder à rotina real. Áreas de colaboração podem conviver com espaços silenciosos, salas reservadas e locais de pausa protegidos do fluxo intenso. Em vez de impor uma única configuração, o ambiente oferece opções para diferentes atividades e necessidades sensoriais.

O projeto não termina na entrega

Depois que o espaço entra em uso, a avaliação pós-ocupação mostra o que funcionou, o que ainda gera dificuldade e quais demandas surgiram. Esse acompanhamento transforma o ambiente em parte de uma estratégia contínua de prevenção, não em uma intervenção apenas estética.

“O papel do arquiteto não é simplesmente entregar um escritório bonito. É compreender os objetivos da empresa, escutar as pessoas e atuar como parceiro na construção de condições mais saudáveis. A arquitetura pode contribuir para a prevenção, mas precisa caminhar com a gestão, os recursos humanos e a saúde ocupacional”, conclui Priscilla.

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  • NR-1

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